Tragédia da Chapecoense une o país e humaniza o jornalismo

Não é nada fácil escrever num dia tão triste quanto esse histórico 29 de novembro de 2016. Por volta das 2h de Brasília, as redes sociais foram tomadas pela notícia do desaparecimento do voo que levava a equipe da Chapecoense para a primeira partida da final da Copa Sul-Americana, na Colômbia. A tragédia começou a se desenhar com a ANAC negando que o clube catarinense viajasse em avião fretado para Medellín (COL). A delegação teve que embarcar em voo comercial até a Bolívia, e de lá encarar uma perigosa viagem que foi abreviada com mau tempo, possíveis panes elétrica e seca e uma dose de heroísmo do piloto. Foi o suficiente para salvar poucas vidas, infelizmente.

Na madrugada, me peguei ouvindo rádio do interior da Colômbia em busca de notícias, muitas vezes desencontradas. No SporTV, Lívia Laranjeira lutava com a internet para reportar o resgate dos feridos. GloboNews muito atrasada e o SBT em cima do lance, ao contrário da RecordTV. Uma pena que às 6h, o show de horror e vergonha alheia do Primeiro Impacto e o H̶o̶m̶e̶m̶ ̶d̶o̶ ̶S̶a̶c̶o̶ Dudu Camargo invadiram minha TV, com o moleque torcendo para ver corpo de jornalista na ambulância (é sério).

O que não faltou nesse dia trágico foi jornalista carniceiro. De Sônia Abrão – quelle surprise… – a uma equipe da TV Atalaia/RecordTV que literalmente enfiou microfone na cara de familiar de jogador morto. Mas também sobrou solidariedade e união. Rivalidades históricas foram esquecidas, e pela primeira vez vimos clubes do Brasil e do mundo consternados e querendo ajudar a mais simpática das equipes de futebol. Adversário da final, o Atlético Nacional-COL se recusa a disputar o título, e quer que a “Chape” seja declarada campeã sul-americana. A reconstrução, infelizmente, não poderá esperar.

Entre os 71 mortos, membros da delegação da Chapecoense, tripulantes e 21 jornalistas. Grandes comentaristas, repórteres e narradores que saíram da vida e viraram história. Das mortes, as que mais me tocaram foram a de Deva Pascovicci (FOX Sports) e do jovem Guilherme Marques (Globo Rio), de apenas 28 anos. A narração da última grande defesa de Danilo (vídeo abaixo) me arrancou muitas lágrimas, o dia todo. E era irresistível assistir de novo…

A Chapecoense queria conquistar a América, e acabou ganhando o mundo. Seus jogadores e funcionários foram da Série D a uma final continental em apenas 7 anos, e em um piscar de olhos, foram à eternidade. Os grandes clubes e estádios da Europa, as TVs da Argentina, os monumentos pelo mundo e as quadras da NBA foram pintados pelo preto do luto e o verde do Furacão do Oeste. Tragédias aéreas não são novidade no esporte, mas algo inédito no Brasil virou o único assunto das enlutadas mesas de bar, almoço e jantar.

Chorei. Chorei, e chorei muito, como poucas vezes na vida. O dia mais triste nas redações desde a morte de Ayrton Senna teve textos sóbrios, sangue frio e muita emoção. Sou Lacombe, sou Rizek, sou Silvio Luiz. Somos humanos, enfim.

E o momento mais bonito veio no Jornal Nacional. O jornalismo humano – mas sem sarrada, sem galhofa e sem espremer sangue – mostrou que está vivo, e que é capaz de tocar o nosso coração. O encerramento com Heraldo Pereira, Galvão Bueno e Giuliana Morrone no meio da redação, com um minuto de aplausos aos mortos parou o país para que choremos e confortemos as famílias dos que foram e dos que ficam. Força, Chape!

  • 03/12/2016
  • Vinícius Sacramento

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